Encontro marca novo diálogo entre produtores e ambientalistas

Agrônomo e coordenador ambiental do Grupo Amaggi, João Shimada, fala sobre a campanha pela recuperação e preservação das matas ciliares do rio Xingu, em entrevista concedida à reportagem do ISA, durante o encontro realizado de 25 a 27 de outubro, em Canarana, MT.
João Shimada, engenheiro agrônomo, é coordenador ambiental do Grupo Amaggi, uma das maiores empresas produtoras e exportadoras de soja do Mato Grosso, cujo proprietário é o governador do estado, Blairo Maggi. Shimada participou do Encontro Nascentes do Xingu e assumiu o papel de porta-voz do setor produtivo nas reuniões com os demais grupos presentes. Em entrevista ao repórter Bruno Weis, do ISA, ele faz um balanço do evento de Canarana e aponta os compromissos e expectativas dos grandes proprietários rurais para levar adiante a campanha ‘Y ikatu Xingu.
Qual o diagnóstico feito pelo grupo de produtores rurais presente ao Encontro?

O consenso é que o maior problema nas Áreas de Preservação Permanente (APPs) é mesmo o desmatamento, a supressão da vegetação original e suas conseqüências, como o assoreamento dos rios, a perda de biodiversidade. A principal ação a curto prazo por parte dos produtores seria o isolamento das áreas degradadas, o que resolveria de 40% a 70% dos problemas. E, nos casos em que se faz necessária, a recomposição vegetal, seja pelo lançamento de sementes, seja pelo replantio de mudas de espécies nativas.

Os produtores rurais estão mobilizados para atuar na campanha de recuperação das nascentes?

Sem dúvida, todos concordam que as APPs devem ser recuperadas. Isso é consenso. Os fazendeiros focaram nas APPs pois é uma forma de fechar a discussão para o surgimento de ações mais objetivas. O que acontece é que os produtores presentes ao Encontro em Canarana são representantes do setor, mas não representam todos os produtores e nem falam por eles. Por isso a importância de levarmos adiante campanhas de sensibilização e de educação ambiental para mobilizarmos o maior número possível de produtores. Outra idéia seria treinar uma assistência técnica para multiplicar os melhores modelos de produção ambientalmente responsável. Para isso poderíamos criar um corpo de técnicos, formado não apenas por membros de órgãos públicos, mas também do setor privado que trabalham com empresas de insumos agrícolas, para atingirmos a ponta do negócio: o produtor cheio de dúvidas. Até porque muitos fazendeiros acreditam que devem preservar, mas não sabem como fazê-lo. A gente precisa, a partir do consenso tirado aqui em Canarana, chegar no produtor e dizer o que e como preservar e recuperar as áreas sob risco ou já degradadas.

Quais as ações concretas surgidas no Encontro?

Eu acredito que essa discussão é um início, mas não deu conta de toda a complexidade que envolve as questões da bacia do Xingu, onde existem várias realidades – no sul a região de cerrado, no norte a floresta e, no centro, uma mata de transição. Por isso não dá para fazer um pacote tecnológico aplicável a todo mundo. Mas eu acho que o trabalho pode avançar muito a partir daqui e vai resultar na recuperação das nascentes. Outra coisa é que muitas vezes ao elaborarmos um projeto de recuperação ambiental faltam dados técnicos e diagnóstico da área. Por exemplo: sou um produtor e estou convencido a revegetar uma determinada área da minha propriedade, vou plantar para recompor minha APP. Mas, de acordo com o ecossistema e o tipo de solo da minha fazenda, o que eu vou plantar? Não temos estes dados, que são fundamentais para a coleta de sementes, para a produção de mudas e para toda a cadeia de produção.

Qual seria o próximo passo?

Todos os setores deveriam chegar a um consenso maior para a recuperação das APPs. Para que isso aconteça existem várias dificuldades, desde os aspectos técnicos até os econômicos – há produtores capitalizados para fazê-lo, outros não. Vai haver uma linha de crédito? Quais são os passivos de cada sub-bacia, e qual o perfil dos produtores destas sub-bacias? Acho que as próximas reuniões devem ter um cunho mais técnico para responder a estas e outras questões.

Qual sua avaliação sobre a receptividade dos outros setores às propostas dos grandes produtores?

Sinceramente eu achava que iríamos encontrar maior resistência. Normalmente os grandes produtores são vistos como os bandidos da história, por isso esperava mais críticas e isso não aconteceu. Não houve objeções e sim propostas complementares àquelas por nós apresentadas.

Quais são as ações desenvolvidas pela Amaggi para conservação das APPs e demais áreas?

Temos um sistema de gestão ambiental implantado, todas as propriedades da empresa estão rigorosamente dentro da lei e com a Licença Ambiental Única (LAU) emitida. Nós temos, sim, APPs degradadas, mas todas elas contam com projetos de recuperação em andamento. Todas estas áreas estão isoladas e agora estamos avaliando se apenas o isolamento será suficiente para que a vegetação se recomponha naturalmente. Após esse período de acompanhamento, caso não seja suficiente, vamos pesquisar quais espécies existiam em cada área para fazermos recomposição, levando em conta a tecnologia mais viável, seja semeando sementes nativas ou produzindo mudas e plantando uma por uma.

O que impede o fazendeiro de investir nessa recuperação? Altos custos?

Não há nenhum custo que seja impeditivo. O custo de produção de mudas varia muito de espécie para espécie, mas em média é equivalente ao da produção de mudas frutíferas como manga, abacate, laranja. Outro fator é a forma de plantio, pois fazer lançamento de semente sai mais barato. O maior investimento seria em relação à pecuária, pois nesse caso há a necessidade do gado beber água no rio. E, quando você isola a área, tem que fazer bebedouros artificiais, recalcar a água de alguma forma, construir poços artesianos. Outro problema é que você precisa colocar cercas para o gado não invadir a área de preservação. Em termos de custo isso dá, aqui na região, 5 mil reais por quilômetro de cerca. Sem contar outro fator: ao isolar uma APP você acaba desmatando outra área, para ter madeira para as cercas.

Na reunião em Canarana ouvimos fazendeiros que realizam experiências interessantes de conservação de matas nativas, agroflorestamento e recuperação de nascentes. Eles são a regra ou a exceção dentro do setor?

Como em qualquer categoria, a gente tem os bons e os ruins. Muitas vezes, os ruins, mesmo sendo minoria, acabam denegrindo a imagem de toda a classe. Eu diria que a grande maioria está consciente de que é necessário preservar. Normalmente o produtor sabe que tem de conservar as águas de sua propriedade, isso vai pelo bom senso do indivíduo. É lógico que há produtores que herdaram situações críticas e que não podem ser responsabilizados, como também muita gente agiu de determinada forma por desconhecer a maneira correta. Por isso considero fundamental darmos a assistência técnica a esse pessoal. Outro ponto é que este evento aqui pode marcar um novo momento na relação entre produtores e ambientalistas, que num passado não muito distante se viam como inimigos. Agora a gente viu que as idéias estão convergindo, que os ambientalistas estão levando em conta a importância da produção agrícola para a geração de emprego e renda, e para o crescimento do país, e que os produtores estão sabendo que não podem mais produzir de forma predatória e sem responsabilidade. No momento em que passa a existir um canal de comunicação entre os dois lados as chances de convergência são maiores, assim como as possibilidades de recuperação e conservação das áreas ameaçadas.

ISA, Bruno Weis.

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